O fim pode ser o começo

Histórias sobre sequestros na maioria das vezes terminam quando a vítima é encontrada e o sequestrador é preso. Em A filha do rei do pântano da norte-americana Karen Dionne, esse é o ponto de partida.

Publicado em 2017, esse thriller psicológico conta a história de Helena, uma mulher de 28 anos que vive com o marido Stephen e as filhas, Marigold e Iris, em uma casa no Michigan. Sua família não conhece a verdade sobre o seu passado, nem mesmo seu real sobrenome. Helena é filha de um sequestrador, Jacob Holbrook. Apesar do comportamento agressivo do pai, ela o adorava, pois passara a infância sem saber quem era ele e o que havia feito à sua mãe:

“Sempre tive medo do meu pai, mas, até aquele momento, tinha sido mais um temor respeitoso. Um medo de desagradá-lo, não porque eu temesse ser castigada, mas porque não queria decepcioná-lo. Mas ver meu pai quase afogar minha mãe me aterrorizou – especialmente porque eu não entendia por que ele quis matá-la ou o que ela havia feito de errado. Eu não sabia, na ocasião, que minha mãe era sua prisioneira, ou que ela poderia de fato estar tentando fugir. Se eu fosse ela, aquele quase afogamento teria me deixado mais determinada do que nunca a escapar do meu sequestrador. Mas uma coisa que aprendi desde que deixei o pântano é que cada pessoa é diferente. O que uma pessoa deve fazer outra não consegue”. (p.141)

Quando a mãe dela tinha 14 anos fora levada por Jacob para o pântano. Depois de dois anos, Helena nasceu. O pai dela, descendente da tribo indígena ojibwa, ensinou-a a caçar, nadar e viver como uma nativa na floresta. Ao retornar à sociedade, porém, Helena percebe que tudo o que havia aprendido não lhe servia em sua atual vida. A dificuldade de adaptar-se e o preconceito em relação às suas origens e ao seu comportamento, fizeram com que ela buscasse uma nova identidade:

“Que, embora eu tenha aprendido a ler graças a uma pilha de revistas National Geographic da década de 50 e a uma edição amarelada dos poemas reunidos de Robert Frost, nunca fui à escola, nunca andei de bicicleta, não conhecia eletricidade ou água encanada. Que as únicas pessoas com quem falei nesses doze anos foram minha mãe e meu pai. Que eu não sabia que éramos prisioneiras até não sermos mais”. (p.10)

Todas essas memórias ressurgem assim que Helena ouve no rádio sobre a fuga do pai, conhecido como o rei do pântano. A partir daí, a autora constrói uma narrativa em duas direções: passado e futuro. Aos poucos descobrimos como ocorreu o sequestro, como elas fugiram e retornaram à sociedade, ao mesmo tempo em que acompanhamos a caçada ao pai, a reação do marido, e imaginamos como tudo terminará.

Narrado em primeira pessoa, Helena conta sua história, examinando suas lembranças e buscando entender as atitudes do pai, da mãe e dela mesma:

“Os jornais chamavam meu pai de Rei do Pântano, como o ogro do conto de fadas. Eu entendo por que lhe deram esse nome, como qualquer um que conheça o conto de fadas entenderá também. Mas meu pai não era um monstro. Quero deixar isso absolutamente claro. Sei que muito do que ele disse e fez foi errado. Mas, no fim das contas, ele só estava fazendo o melhor que podia com o que tinha, como qualquer outro pai”. (p.47)

A filha do rei do pântano é o título também de um conto de Hans Christian Andersen, que não só serviu de inspiração como é contado paralelamente por Dionne. No conto de fadas do escritor dinamarquês, uma criança, filha de um ogro e uma princesa é dada a um casal de vikings que não tinham filhos. A menina cresce linda, no entanto, é amaldiçoada, transformando-se em sapo durante a noite. Na sua forma humana ela é má e cruel, e como sapo, é bondosa:

“Ela era de fato selvagem e indomável, mesmo naqueles tempos difíceis e incultos. Chamaram-na de Helga, um nome bastante doce para uma criança com tal temperamento, ainda que sua forma continuasse bela”. (p.120)

A dualidade presente no conto de Andersen reflete-se na história de Helena. Nenhum dos personagens é visto como unicamente bom ou mau. Talvez o fato de não ter sido narrada nem pelo ponto de vista da vítima e nem do sequestrador, mas por alguém que estava entre os dois, nos faz refletir sobre cada um dos lados. O livro ainda nos mostra diferenças culturais (nativos e civilizados) e como a sociedade reage após a conclusão dos fatos:

“Às vezes a pessoa acha que quer uma coisa, mas, depois que consegue, descobre que não era bem aquilo que queria. Foi o que aconteceu comigo quando saí do pântano. Achei que poderia construir uma vida nova para mim, ser feliz. Eu era inteligente, jovem, ansiosa para adotar o mundo exterior, ávida para aprender. O problema era que as pessoas não estavam igualmente ansiosas para me adotar. Há um estigma em ser a filha de um sequestrador, estuprador e assassino de que não é fácil se livrar. Se as pessoas acham que estou exagerando, deveriam pensar nisto: Elas me receberiam bem em sua casa sabendo quem era meu pai e o que ele fez com a minha mãe? Me deixariam ser amiga de seus filhos e filhas? Confiariam em mim para ser a babá de seus filho? Mesmo que alguém responda sim para alguma dessas perguntas, aposto que hesitaria antes”. (p.156)

Considerado um dos melhores suspenses psicológicos do ano passado, A filha do rei do pântano foi o livro de outubro do clube de assinatura Tag Inéditos e uma grata surpresa para mim. Além das reflexões, muitas imagens do pântano ficaram, uma delas das taboas, planta característica que coloquei na imagem em destaque deste post.

A filha do rei do pantano

 

A filha do rei do pântano
The marsh king’s daughter
Karen Dionne
São Paulo: Verus, 2018. Especial para a TAG Inéditos
284 páginas

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Todo mundo tem uma história de amor para contar

Essa ideia poderia ter sido a premissa para a construção de Meu tipo de garota, do escritor bengali Buddhadeva Bose. Seguindo a mesma estrutura de obras como Decamerão de Boccaccio e Contos da Cantuária de Chaucer, em que viajantes contam histórias para entreter o grupo, Bose reúne quatro estranhos para narrar histórias de amor enquanto aguardam o trem.

Após um acidente na ferrovia, um empreiteiro, um burocrata, um médico e um escritor são obrigados a passar a noite juntos na sala de espera da estação ferroviária de Tundla. Enquanto pensam em como irão se ajeitar para dormir, um jovem casal apaixonado aparece à porta, mas logo parte em busca de um cantinho mais sossegado. A aparição dos enamorados, porém, faz com que o empreiteiro sugira um passatempo: cada um deverá contar uma história de amor.

E é ele mesmo quem começa a narrar a história de Makhanlal. Um rapaz sem nada de especial, filho de um marceneiro e o primeiro da família a se formar em uma faculdade. Esse aliás era o sonho de sua mãe, vê-lo com um diploma. No entanto, mesmo formado, bonito e ganhando bastante dinheiro, Makhanlal não é aceito pela família de Malati, cujo pai é um professor falido a quem ele decide ajudar.

Gagan Baran Chaterjee, o burocrata, conta sua própria história. Morador de Delhi, mas nascido em Bengala, Gagan relembra o tempo em que vivia em sua terra natal e da época em que descobriu o amor:

“Dentro de mim, o espírito dos dezessete anos trabalhava em silêncio. Vocês falaram de amor; eu também sonhava com o amor. Aprender as fórmulas da química havia me exigido muito esforço; mas as fórmulas básicas da vida tinham que ser aprendidas por si mesmas (…) Incontável foi o número de romances que eu devorei em meio aos livros escolares, todos os títulos disponíveis em nossa cidadezinha (…). Hoje sinto que, por mais que eu ouvisse falar de tudo isso por meio da palavra escrita, não sabia de nada, não tinha ouvido nada; e, mesmo que tivesse ouvido, eu não escutava. No entanto, quando ouvi, aos dezessete anos, vindo de Pakhi, uma melodia fluiu das flautas até preencher todo o céu”. (p.50)

O terceiro a falar é o médico, que conta como conhecera Bina, sua esposa, quando ele era recém-formado e fora chamado por um amigo para cuidar da garota.  Por último, o escritor Bikash narra a paixão que ele e seus dois amigos nutriam por uma bela garota, a quem apelidaram de Mona Lisa:

“’Ela se parece muito com a Mona Lisa’. Já tínhamos gasto  muita saliva a respeito depois disso, sem chegar a uma conclusão; mas o bom é que começamos a nos referir a ela como Mona Lisa. Por mais melodia que houvesse em Antara, por mais doçura que houvesse em Toru, nós três não podíamos, de modo algum, nos referir a ela pelo mesmo nome que todo mundo usava – chamá-la por outro nome, que só nós conhecíamos, era quase como tomar posse dela”. (p.109)

Considerado um dos mais importantes escritores bengalis do século XX, Bose publicou Meu tipo de  garota em 1951. As histórias narradas por cada um dos personagens são ligadas por um sentimento de nostalgia e desilusão. Ainda que de forma sutil, percebemos as questões morais e sociais que estão por trás dos desenlaces. E aqui fica uma dica, para quem não quer saber como terminam as histórias, deixe para ler as orelhas do livro depois.

“Não existe ninguém que nunca tenha gostado de alguém. O que aconteceu depois não importa; o que importa é o gostar. Talvez seja a memória também o que importa. Alguma lembrança…” (p. 16)

… ou uma história de amor para contar.

Meu tipo de garota

 

Meu tipo de garota
Moner mato meye
Buddhadeva Bose
São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
146 páginas

Chão de histórias

Nesta obra de estreia de Maria Valéria Rezende, o narrador é o chão. É ele quem vai contar as histórias dos moradores de Farinhada, a fictícia cidade do Nordeste, palco de tramas de amor, vingança, luta e sofrimento. Vasto mundo reúne 18 narrativas entrelaçadas através de seus personagens, ora protagonistas, ora coadjuvantes.

A primeira história, que dá título ao livro, tem como personagem principal o jovem Preá. Um simples faz-tudo que descobre o amor assim que uma moça do Rio de Janeiro chega à cidade:

“Preá não sabe que coisa é esta acontecendo dentro dele. Começou quando bateu com os olhos na moça. Uma queimação dentro do peito, uma nuvem na vista que esconde tudo o que não é a moça, os ouvidos moucos para tudo que não seja a voz dela. Nem com Edilson, o amigo quase irmão, Preá não quer conversa. Um sentimento que parece tristeza, mas não é. Pelo menos não é daquela tristeza de quando a avó morreu nem de quando o cachorro sumiu. Preá não sabe o que é”. (p.16)

Em “Sonhar é preciso”, é o amigo de Preá, Ramiro, o protagonista. Conhecido por dormir pofundamente, sem nunca ter sonhado, Ramiro tem sua vida mudada quando os sonhos passam a fazer parte de suas noites. Além de Preá, outros personagens são recorrentes, como por exemplo: Assis Tenório, o deputado latifundiário, e seu capanga Adroaldo; o professor com problema na perna e seu irmão jogador de futebol, e o padre beberrão Frank. Com doses de humor, poesia e sofrimento, a autora conta histórias de gente comum, embora acrescente tipos memoráveis como o justiceiro que tem medo de escuro e a freira ativista que vira líder das prostitutas:

“A vida de Aurora mudou outra vez da água para o vinho: a casinha de taipa numa ponta da rua, difícil de manter limpa, o belo hábito branco trocado por uma roupinha qualquer, para ficar igual a todo mundo de pobres, a zoada dos rádios, a meninada da vizinhança metendo-se pela porta adentro e a impossibilidade de o povo dizer seu nome alemão. Irmã Helga virava invariavelmente irmã Égua. As irmãs concordaram em que não podia ser: voltou a chamar-se Aurora dos Prazeres”. (p.128)

Há ainda tramas sobre amores impossíveis, no estilo de Romeu e Julieta, e sobre visitantes interplanetários:

“Nos dias seguintes, muita gente jurou ter visto coisas estranhas, mas nenhum sinal concreto da presença do extraterrestre foi encontrado. Farinhada, o povoado mais perto da famosa curva, encheu-se de jornalistas, equipes de televisão e curiosos. Só o pessoal da Nasa não apareceu. A pensão de dona Inácia fez bons lucros, as meninas namoraram os fotógrafos. Erlinda vendeu mais de seiscentas empadinhas na praça, padre Franz passou horas tomando cana e conversando de política com os jornalistas, enfim, uma semana de festa e distração. Passados sete dias sem sinal do viajante astral, a imprensa volúvel foi-se embora e as águas da rotina farinhense voltaram ao seu leito”. (p.64)

Dividido em três partes sob o mesmo título “A voz do chão” (diferenciado apenas pela enumeração), o livro, apesar de ter menos de 200 páginas, é o resultado de um acúmulo de experiências da autora. Não há como não enveredarmos por essa trama, e temos o chão por testemunha:

“Permaneço, não me posso mover daqui, mas distraio-me com os passos e sussurros, com os saltos e berros que me cruzam todos os dias e noites. Não me posso queixar de enfado, desconheço o tédio, mas aprendo a saudade e o espanto quando se relembram as lendas dos que foram para nunca mais, ou quem sabe um dia… A vida é o que se vê, o que se sonha, o que se narra, o que se lembra ou se esquece? A vida é para sempre?”. (p.111)

Vasto mundo

 

Vasto mundo
Maria Valéria Rezende
Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
163 páginas

7 canções com trechos de livros

É bem provável que duas músicas passaram pela sua mente só de ler a chamada: Monte casteloAmor I love you. Elas são quase um lugar comum quando falamos de canções com trechos de livros e não poderiam ficar de fora dessa 7List. Além delas, selecionei mais algumas que mostram como literatura e música formam uma bela combinação.

Com o intuito de não deixar o post ainda mais extenso, não reproduzi as letras das músicas, pois estas são facilmente encontradas na internet. Optei apenas por colocar os poemas que inspiraram as canções e os trechos dos livros com as partes utilizadas em destaque. Há ainda uma playlist no Spotify com as músicas selecionadas.

  1. Monte Castelo – Legião Urbana

Para falar de amor nesta canção do álbum As quatro estações (1989), Renato Russo escolheu o poema 81 da Lírica de Camões.  O autor do classicismo português, conhecido por Os lusíadas, escreveu os poemas líricos após um amor frustrado que o levou inclusive, a exilar-se na África. Junto aos versos de Camões, Russo acrescentou versículos do Coríntios da Bíblia.

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

sonetos de amor

 

Sonetos de Amor
Luís de Camões
São Paulo: Penguin, 2016.
96 páginas

 

 

  1. Puedo escribir – Sixpence None the Richer

O poeta chileno Pablo Neruda foi a inspiração para essa canção da banda norte-americana conhecida pelo hit Kiss me. Ambas as músicas estão presentes no álbum Sixpence None the Richer, de 1997. Puedo escribir (Posso escrever) traz apenas quatro versos do poema 20 de Neruda, na qual ele fala sobre um amor perdido.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,
Y tiritan, azules, los astros, a lo lejos”.
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mi brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocio.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
La miesma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oido.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
Y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

In Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924).

  1. Amor I love you – Marisa Monte

Eça de Queirós foi o grande nome do Realismo português, responsável por obras como O crime do padre Amaro; Os maias e O primo Basílio. Este, inspirado no clássico francês Madame Bovary, tinha como tema central a relação adúltera de Luísa (esposa de Jorge) com Basílio, seu primeiro amor, recém-chegado de Paris. O trecho escolhido por Marisa Monte está no sexto capítulo e diz respeito a um bilhete de Basílio e a reação de Luísa ao recebê-lo:

“Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”

Na música, lançada em 2000, a passagem do livro é narrada por Arnaldo Antunes.

Primo Basílio

 

O primo Basílio
Eça de Queirós
São Paulo: Penguin, 2015.
480 páginas

 

 

  1. Love is noise – The Verve

Neste caso, não se trata de uma simples transcrição, mas de uma paráfrase. A banda inglesa reformulou os versos do poema Jerusalém de William Blake, escrito em 1804, para 2000, ano em que foi lançada a canção no disco Forth. No poema original, Jesus visita a Inglaterra  após a Revolução Industrial. Na letra da música, imaginamos o visitante nos tempos modernos. Compare:

“And did those feet in ancient time
Walk upon Englands mountains green:
And was the holy Lamb of God
On Englands pleasant pastures seen!”
(Blake)

“Will those feet in modern times
Walk on soles that are made in China?
Through the bright prosaic malls
And the corridors that go on and on and on”
(The Verve)

In Preface to Milton a Poem (1810).

  1. Amor é para quem ama – Lenine

Mais uma canção de amor. Dessa vez, é Lenine quem pega emprestado de Guimarães Rosa um trecho de Grande sertão: veredas. A bela história de amor entre Riobaldo e Diadorim foi publicada pela primeira vez em 1967. Muitas de suas frases, porém, ecoam ainda hoje:

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem o perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

Grande sertão

 

Grande sertão: veredas
João Guimarães Rosa
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
496 páginas

 

 

  1. Because I could not stop for death – Natalie Merchant

O poema Because I could not stop for Death (Como eu não pude parar para a morte) de Emily Dickinson foi musicado por vários artistas. Na versão de Natalie Merchant (ex-vocalista da banda 10,000 Maniacs), o poema foi preservado na íntegra com poucas mudanças. O tema é a morte, que está em uma carruagem passeando com o narrador.

Because I could not stop for Death –
He kindly stopped for me –
The Carriage held but just Ourselves –
And Immortality.
We slowly drove – He knew no haste
And I had put away
My labor and my leisure too,
For His Civility –
We passed the School, where Children strove
At Recess – in the Ring –
We passed the Fields of Gazing Grain –
We passed the Setting Sun
Or rather – He passed Us –
The Dews drew quivering and Chill –
For only Gossamer, my Gown –
My Tippet – only Tulle –
We paused before a House that seemed
A Swelling of the Ground –
The Roof was scarcely visible –
The Cornice – in the Ground –
Since then – ‘tis Centuries – and yet
Feels shorter than the Day
I first surmised the Horses’ Heads
Were toward Eternity

In The Poems of Emily Dickinson (1999)

  1. Paint it black – The Rolling Stones

Essa música da banda inglesa é citada no livro 1001 músicas para ouvir antes de morrer. Nos comentários sobre ela, o autor informa sobre a frase que Mick Jagger tirou do clássico calhamaço Ulisses, de James Joyce:

“I have to turn my head until my darkness goes”

Lançada em 1966, Paint it black fala sobre depressão. Já o livro narra um dia na vida de Leopold Bloom, um Ulisses dos tempos modernos.

Apesar da menção em publicações e em vários sites, não há uma confirmação de que essa frase realmente faça parte da obra do escritor irlandês. E enquanto eu não encaro as mais de mil páginas de Ulisses, fica a dúvida. E você, tem a resposta?

Ulisses

 

Ulisses
James Joyce
São Paulo: Penguin, 2012.
1112 página

 

 

Ouça as músicas na playlist!

Por que é proibido ler Lewis Carroll?

Alice no País das Maravilhas tem animais que falam e se comportam como seres humanos e essa igualdade poderia ser desastrosa para as crianças, além de ser um insulto para os humanos. Com essa justificativa, o general Ho Chien, governador da província chinesa de Hunan, baniu o famoso livro de Lewis Carroll, em 1931. Não sabemos se tal fato foi a premissa para Diego Arboleda escrever o livro É proibido ler Lewis Carroll, mas o general é citado em suas páginas, ironicamente como tendo a cabeça de um sapo.

No caso deste livro infanto-juvenil de Arboleda, ilustrado por Raúl Sagospe, a proibição está restrita à Alice, uma garota que se veste, se penteia e age como a famosa personagem. Para não alimentar a obsessão da filha, os pais proibem qualquer menção a Carroll na frente dela:

“ – Eu lhe advirto: nesta casa é proibido ler Lewis Carroll. E temos nossas razões. Somos motivo de riso das pessoas de bem de Nova York. Nossa filha pergunta se as pessoas viram um coelho branco que está sempre atrasado, afirma que os animais podem falar e diz que ela só joga croquet usando aqueles pássaros cor-de-rosa…”. (p.65)

Essa regra básica deveria ser obedecida por Eugénie Chignon, a preceptora francesa recém-contratada pelos Welrush, pais de Alice. Vinda de Les Arcs na França, Eugénie era conhecida não só pelos cabelos ruivos presos em coque e pela boa educação, mas por deixar um rastro de destruição por onde passava. Ela chega a Manhattan após uma viagem de navio, na qual ficara conhecida como a garota que causa desastres. Evitada por todos, ela acaba amiga de dois senhores: Baptiste Travagant e Peter Davies. O primeiro é um explorador que viaja o mundo carregando um ovo gigante em um carrinho de bebê e Davies fora o menino que inspirou J.M.Barrie a criar Peter Pan.

Assim que se apresenta aos futuros empregadores, Eugénie descobre que terá mais uma tarefa: mentir. Isso porque o Sr. Welrush participará da comemoração do centenário do nascimento de Lewis Carroll na Universidade de Columbia, onde ele trabalha. No evento estará presente Alice Liddell Hargreaves, a senhora que aos dez anos de idade conheceu Carroll e foi eleita para ser protagonista de sua história. E Eugénie deverá evitar que a esperta Alice descubra tudo:

“ – Finja, manipule, minta. Vão fazer a homenagem para Alice Liddell no mesmo dia de seu aniversário de oitenta anos, nesta quarta-feira, dia 4. Hoje é dia primeiro, são só quatro dias. Não queremos que nossa filha Alice nos envergonhe diante de toda a Nova York. Minta sempre que tiver que mentir. Nossa filha não pode ficar sabendo que a personagem que a deixa louca, a Alice de Lewis Carroll, a do País das Maravilhas, vai estar nesta mesma cidade.
Eugénie Chignon, preceptora francesa, desastrada profissional, tinha agora um emprego de fingidora em Manhattan, Nova York, América, a milhares de quilômetros da comarca de Les Arcs”. (p.68)

Para completar o que promete ser uma grande confusão, há ainda a presença do irmão da Sra. Welrush, Timothy Stilt. Após uma experiência em que quase morreu de fome no deserto, o tio de Alice vive com fome e come tudo o que vê pela frente, fazendo-o até mesmo subir pelas paredes em busca de comida.

A história acontece em 1932, ano em que, segundo o próprio autor, Hitler tentara tomar o poder pela primeira vez na Alemanha. Outros fatos e personalidades reais fazem parte do enredo, entre os quais o reitor da Universidade de Columbia e vencedor do Nobel da Paz Nicholas Murray Butler, além dos já citados:  Alice Liddell e Peter Davies que, assim como na história, encontraram-se na vida real, só que em uma livraria de Londres, em 1932.

A obra tem situações bem construídas e personagens elaborados, cujos nomes já mostram suas características: o extravagante Sr. Baptiste Travagant; o alto e escalador de paredes tio Stilt (perna-de-pau em inglês) e o Visconde de Analphabète, responsável por uma carta de recomendação em branco para os Welrush.

Mais do que proibições, personagens infantis adorados por todos e um mundo cheio de fantasia, É proibido ler Lewis Carroll mostra como até mesmo no nonsense pode existir coerência. Em um dos meus capítulos favoritos “Os não conversadores de uma não conversação”, percebemos como comunicar-se nem sempre é uma tarefa simples:

“Provavelmente, todo mundo sabe o que é uma conversa, mas talvez não saibam o que é uma não conversação. Uma não conversação não é o mesmo que um silêncio. Um silêncio é quando ninguém fala nem faz barulho. Uma não conversação é quando ninguém diz o que quer dizer”. (p.114)

Vencedor de vários prêmios, Diego Arboleda, escritor espanhol nascido na Suécia, cria uma divertida e surreal história que não deixa de ser uma homenagem ao criador de Alice no País das Maravilhas. E sua escrita, belamente construída, está longe de ser apenas uma brincadeira de criança. Por falar em criança, essa leitura foi sugerida por uma, o Bernardo, filho de uma grande amiga. 

 

É proibido ler Lewis Carroll

 

É proibido ler Lewis Carroll
Prohibido leer a Lewis Carroll
Diego Arboleda e ilustrações de Raúl Sagospe
São Paulo: FTD, 2016.
208 páginas

Muito além da Coreia do Norte

Mesmo que atualmente tenhamos mais informações a respeito da Coreia do Norte do que nas décadas anteriores, ainda estamos longe de saber o que é ser um cidadão norte-coreano. Uma pequena amostra, no entanto, vem pelo relato real do poeta Jang Jin-sung em sua obra Querido líder, que revela os segredos da ditadura norte-coreana, assim como traz os detalhes de sua fuga para a Coreia do Sul, país onde o autor vive no momento.

Jang Jin-sung era funcionário do Departamento da Frente Unida (DFU), uma divisão especial do Partido dos Trabalhadores, responsável pela tomada de decisões políticas e pela espionagem intercoreana. Seu trabalho na seção 5 (literatura) da divisão 19 (poesia) do escritório 101 (em referência à sala 101 do clássico 1984, de George Orwell) era produzir obras seguindo modelos sul-coreanos. O intuito principal dessa atividade era enaltecer a Coreia do Norte e seu líder, de modo a influenciar os valores dos coreanos, que acreditariam que até mesmo sul-coreanos reconheciam a supremacia norte-coreana:

“O povo norte-coreano jamais imaginaria que todas aquelas obras aparentemente estrangeiras tinham sido produzidas pelo Escritório 101, bem no coração de Pyongyang. Isolados do mundo exterior, não surpreende que eles acreditassem que os povos do mundo, inclusive sul-coreanos, admirassem a forte liderança de nosso país e suas muitas realizações”. (p.44)

A rotina de Jang envolvia a leitura de jornais, romances e poesia sul-coreanos para se familiarizar com os temas e o estilo literário deles, que depois ele reproduziria em sua escrita.  Como material estrangeiro era proibido, os funcionários do Escritório 101 só podiam ter acesso a ele durante o expediente e deveriam mantê-lo trancado em gavetas. Além disso, esses escritores não tinham liberdade para escrever o que tinham vontade, e sim o que era determinado pelo regime.  Foi com um poema encomendado a Jang para que justificasse a política do Songun (Forças Armadas primeiro) como um ato para defesa dos sul-coreanos, que o poeta caiu nas graças do Querido Líder (título como era conhecido Kim Jong-il).

E então, com apenas 28 anos, Jang Jin-sung passou a integrar o grupo dos Admitidos, a elite norte-coreana com privilégios e convívio direto com os governantes, incluindo o próprio ditador. Por causa de um nova encomenda que exigiriria um trabalho árduo de seis meses para produzir um poema épico, Jang recebeu uma semana de folga, que decidiu aproveitar indo à sua cidade natal: Sariwon. Ao chegar lá, ele encontra seus habitantes, incluindo muitos de seus amigos, em situação de pobreza extrema, lutando pela refeição do dia enquanto ele tinha acesso a várias refeições diárias e a produtos estrangeiros, o que o deixou muito incomodado. Nessa época, a Coreia do Norte vivia um colapso no seu sistema de distribuição e as pessoas que viviam afastadas da capital, Pyongyang, morriam de fome e sofriam abuso de poder.

Pessoas famintas nas calçadas, fuzilamentos constantes mesmo àqueles que cometiam crimes insignificantes, como o caso do homem morto no mercado por roubar uma saca de arroz, a mulher que vendera a própria filha por uma miséria. Todos esses fatos, juntamente com o que aprendia sobre a Coreia do Sul e o resto do mundo em suas leituras, fizeram com que Jang começasse a se questionar sobre o sistema político norte-coreano e sobre Kim Jong-il, o General.

Para Jang estava claro que havia duas Coreias do Norte, uma real e outra fictícia, criada pelo regime:

“Uma das razões pelas quais a Coreia do Norte não pode implantar reformas e se abrir para o exterior é o risco de trazer a público a falsificação de dogmas essenciais do Estado”. (p.171)

Mesmo sabendo a verdade por trás de cada mentira, foi só com um incidente envolvendo o amigo Young-min que veio a decisão de deixar o país. O amigo, a quem emprestara um livro proibido sobre os Kim, esquecera a publicação em um trem e eles sabiam que era questão de dias para a polícia chegar até eles. Só havia duas saídas: o suicídio ou a fuga. Se permanecessem lá, não só eles mas seus familiares seriam punidos:

 “Nas profundezas da mente de todos os norte-coreanos, avulta o princípio da culpa por associação, pelo qual a família e as pessoas próximas ao traidor são destruídas junto com ele, de modo que sua corrupção seja erradicada para sempre. Eu sabia que esse princípio não era uma ameaça vazia, já que o Estado fazia questão de exibi-lo ao povo sempre que havia uma oportunidade de levá-lo à prática. Até o momento essa possibilidade parecera distante para mim, mas eu me sentia na posição de alguém prestes a experimentar suas consequências devastadoras”. (p. 109)

Jang e o amigo chegaram a Musan, cidade na fronteira com a China em janeiro de 2004. Os detalhes da fuga e o que enfrentaram são narrados com outros fatos sobre o regime norte-coreano e as atrocidades cometidas por ele: a obscura ascensão ao poder por Kim Jong-il, que usurpara o poder do pai Kim Il-sung; a Operação Semente implantada nos anos 80 que sequestrava cidadãos estrangeiros, principalmente japoneses com o intuito de criar espiões; a campanha do Escrutínio em que mais de 20 mil funcionários do governo foram enviados aos campos de concentração ou  fuzilados e a poda de ramos laterais, que elimina parentes próximos ao ditador na linha de sucessão. Esta, inclusive, parece se repetir com a terceira geração dos Kim, cuja morte do tio de Kim Jong-un em 2013, é citada pelo autor no posfácio.

Não há como não se impressionar com a realidade mostrada por Jang Jin-sung sobre seu país: um lugar onde a população não tem o direito de ir e vir internamente, necessitando da permissão do Estado para viajar, onde as mulheres são proibidas de usar cabelos compridos e soltos sob a justificativa de simbolizar a corrupção da sociedade capitalista e onde aos olhos de quem está de fora, é possível ter monges e padres, embora para a DFU só seja permitido o culto aos Kim.

Como trata-se de uma história recente, o autor diz que há informações não reveladas no livro porque poderia comprometer a segurança de todos os norte-coreanos que estão em busca da liberdade. O que podemos imaginar é que muitas das questões continuam a existir.

A narrativa didática, com explicação de termos e fatos históricos  (inclusive com um glossário e um índice remissivo) tornam a leitura fácil e esclarecedora. Nessa viagem à Coreia do Norte pelo projeto de Volta ao mundo em 80 livros fica mais um aprendizado:

“A liberdade é dada de graça a qualquer pessoa nascida em um país livre; no entanto, quem não o é precisa arriscar a vida por ela”. (p.374)

Querido lider

 

Querido líder
Dear leader
Jang Jin-sung
São Paulo: Três Estrelas, 2016.
398 páginas

A (não) ficção científica de Asimov

A conquista de toda a Via Láctea pelo homem, viagens interplanetárias, roupas metálicas que aquecem artificialmente, armas desintegradoras e lixo que se desmaterializa assim que jogado no ar. Esses são apenas detalhes do universo futurista criado por Isaac Asimov em sua Trilogia da fundação. A obra, porém,  perpassa o gênero ficção científica, apresentando ao leitor um  tratado sobre  a formação e o declínio de uma sociedade, envolta em jogos de poder e com discussões que envolvem além de política, economia, religião e ciência. Inspirada em Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon, Asimov retorna à história da nossa civilização projetando-a num futuro distante.

A trilogia é composta por três volumes: Fundação, Fundação e império e Segunda fundação, escrita durante os anos de 1942-1953, e vencedora do prêmio Hugo especial  como a melhor série de ficção científica e fantasia de todos os tempos, em 1966.

No primeiro livro, Fundação, o império galáctico, sediado no planeta Trantor, reina há mais de dez mil anos com sucesso. Sua queda, no entanto,  é anunciada pelo cientista Hari Seldon. De acordo com as previsões de Seldon, que têm como base as tendências sociais e econômicas da psico-história (ciência que mistura estatística, história e psicologia), o declínio do império era inevitável e o período de trevas se estenderia por trinta mil anos antes que a humanidade pudesse se reerguer.  Com o intuito de reduzir esse intervalo e minimizar os efeitos do caos, ele cria duas fundações, em extremidades opostas da galáxia. O objetivo inicial da Fundação era produzir uma enciclopédia galáctica para orientar a sociedade no futuro. Assim, vários cientistas foram enviados a Terminus com a função de preparar esse documento, sem saber exatamente a complexidade do plano de Seldon.  Sobre o cientista, a enciclopédia dizia:

“ Hari Seldon… nascido no ano 11.988 da Era Galáctica: falecido em 12.069. As datas são mais conhecidas, em termos da atual Era da Fundação, como de -79 a 1 E.F. Nascido numa família de classe média de Helicon, setor de Arcturus (onde seu pai, como reza uma lenda de autenticidade duvidosa, cultivava tabaco nas usinas hidropônicas do planeta), desde cedo revelou uma fantástica habilidade em matemática. Os relatos sobre sua habilidade são inumeráveis e, alguns deles, contraditórios. Dizem que aos dois anos de idade, ele… “. (p.12)

Dividido em cinco partes, cada uma sobre uma das castas que compõem a sociedade (psico-historiadores, enciclopedistas, prefeitos, comerciantes e príncipes mercadores), o primeiro volume da trilogia fala sobre os duzentos anos iniciais da Fundação. Seu surgimento, as disputas com os planetas mais próximos, o crescimento de seu poder econômico, o domínio nuclear, a presença de figuras como o prefeito Salvor Hardin e do príncipe mercador Hober Mallow e por fim, a ameaça que se tornou para o próprio império.

O segundo volume destaca o personagem Bel Riose, um general que luta para defender o império em seus dias de declínio. Neste período, Hari Seldon e os psico-historiadores não passam de lenda e suas previsões são desconhecidas nos demais planetas. Mas quando um grupo ligado ao império, incluindo o general Riose, toma conhecimento da Fundação, a ameaça volta a pairar sobre todos:

“ – Você não deve brincar, Devers. Há uma tradição, ou fábula, ou história exagerada – não me interessa o quê – sobre sua Fundação: que vocês, um dia, fundarão o Segundo Império. Conheço uma versão bastante detalhada da bobagem psico-histórica de Hari Seldon e os planos de vocês para, um dia, lançar uma agressão contra o Império”. (p.50)

A segunda parte  de Fundação e império apresenta o vilão conhecido por Mulo, um mutante que vem dominando vários planetas por causa de seu poder de controlar as emoções das pessoas. É somente neste livro que temos a participação relevante de uma mulher, Bayta Darell, descendente do comerciante Mallow e pertencente à Fundação.

Na Segunda fundação,  último livro da trilogia, Mulo tornara-se o maior conquistador da Galáxia e é conhecido por Primeiro Cidadão da União. Após a destruição da Fundação localizada em Terminus, ele quer encontrar a Segunda Fundação, cuja localização é desconhecida, assim como seus propósitos. Para isso conta com a ajuda de Han Pritcher e Bail Channis. Uma outra personagem feminina ganha destaque, Arcádia Darell, neta de Bayta, e escritora.

Reviravoltas, uma variedade de personagens e muitos mistérios prendem a atenção do leitor do começo ao fim da trilogia. A escrita é relativamente fácil, embora por vezes seja difícil acompanhar os saltos na linha do tempo e os diálogos intricados sobre disputa pelo poder. Não teremos aqui descrições de um futuro tecnológico e nem grandes heróis, mas o ganho será uma reflexão sobre sociedade e poder. Ao chegar ao final dessa surpreendente obra, entendemos porque ela recebeu o Hugo especial e sua importância poderia ser resumida nesta frase de Gombrich: “ Conscientizamo-nos tanto das perdas quanto dos ganhos nessas sucessivas transformações, que nos trouxeram até a Era Espacial”. (A história da arte)

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Trilogia da Fundação
Isaac Asimov

 

 

 

Fundação
Foundation
São Paulo: Aleph, 2009
240 páginas

Fundação e império
Foundation and empire
São Paulo: Aleph, 2009.
248 páginas

Segunda fundação
Second foundation
São Paulo: Aleph, 2009.
240 páginas